O cultivo social da Ignorância

Uma das questões envolvidas no ato de aprender algo é que isso aumenta a sua responsabilidade e, potencialmente, fará você refletir a respeito do que fez ou faz. Independente de você tentar uma mudança grande ou pequena, ou mesmo seguir refletindo, já ocorreu um pequeno despertar. Para manter o sono social, há quem diga que existe um medicamento bem potente, à base de Agnotologia.

O termo deriva das palavras gregas agnósis (não conhecer, ignorar) e logos (estudo, razão), e foi cunhado pelo biólogo e pesquisador da História da Ciência Robert N. Proctor para designar o estudo da construção e manutenção social da ignorância. Em um resumo breve, a ideia  desse campo de estudo é entender e desvelar os esquemas de desinformação e mistificação – que, entre outros recursos, lançam mão de informações pretensamente científicas, informações incompletas ou totalmente inverídicas. Segundo Proctor, a indústria do tabaco é a principal responsável pela organização e aperfeiçoamento dos métodos agnotológicos de defesa de seus interesses – e, não por acaso, mais um exemplo da importação, pelos EUA, do conhecimento adquirido na Alemanha no período dos anos 30-50.

As estratégias usadas – primeiramente, a manutenção da dúvida sobre os efeitos tóxicos do tabaco, depois, a requisição de mais pesquisas para comprovar a ligação entre o consumo de cigarros e o câncer, e mais recentemente, a identificação do “direito de fumar” com outras liberdades individuais – levam em conta argumentações pretensamente científicas e um grande e privilegiado acesso aos canais midiáticos. O pessoal com mais de 30 anos ainda lembra dos comerciais do cowboy da Marlboro, que viraram símbolo da propaganda da indústria dos cigarros. E é preciso anotar que boa parte dessa história se passou sem que houvesse a Internet, o Twitter e o Facebook para que pudesse trocar informações. Vale lembrar também que essa liberdade toda não significa que estamos “livres” das manobras agnotológicas.

A manutenção da dúvida, por exemplo, foi mantida a base de campanhas nas quais cientistas apresentavam argumentos favoráveis ao consumo de cigarros, como contraposição equivalente aos estudos que mostravam os danos causados. Proctor é um sujeito muito curioso, e por isso apresenta informações surpreendentes: os cientistas nazistas já haviam comprovado os malefícios do cigarro, por exemplo. No caso das mudanças climáticas, ele argumenta que a controvérsia científica é um fator que confunde e desinforma.

Pior: nos dois casos, e em outros, enquanto se pedem mais dados científicos, se atrasa a construção de políticas que poderiam sanar ou amenizar os problemas. Proctor afirma ter gosto em discutir e relacionar ciência, ética e política. Esse é um ponto valioso a considerar.

Uma entrevista bem interessante pode ser conferida aqui. Outra, mais recente, para a Discover Magazine, edição de  janeiro de 2009. Nesta, mais extensa, ele põe o dedo na ferida:

“How did this kind of marketing come about?
It was pioneered by the tobacco industry. They set out to have a massive public relations campaign to defend tobacco at all costs against science. They wanted science that was good PR. I think it’s mainly a post–World War II phenomenon, although there are a couple of exceptions if you go back earlier for specific industries. In the 1920s, lead was almost banned from both paint and gasoline, and the lead industry set out to have a campaign that softened the critiques. And then in the 1930s, you get Big Tobacco manufacturing consumer drive and convincing people this is a cool, natural thing to do, so it’s part of the history of marketing. It’s the applying of marketing techniques to science, which is rather diabolical in a lot of ways.”

 

Um artigo interessante de Michael Betancourt explora, em um trecho, o impacto do “capitalismo agnotológico” na erupção da recente bolha imobiliária nos EUA. Ele relaciona o que se chama de “affective labor” (arrisco algo como “trabalho afetivo”, e o termo designa os tipos de trabalho que provocam ou mudam estados emocionais nas pessoas) com a estratégia de manutenção da ignorância. Conceitos bem interessantes que me trzem duas referências cinematográficas. A primeira, “Obrigado por Fumar”, dispensa comentários sobre a pertinência, apesar de ser uma comédia. A segunda é Matrix, no primeiro filme da trilogia.

Sabe aquela cena em que Morpheus oferece as pílulas a Neo  e explica a ele o que vai acontecer se tomar a pílula azul? E, por outro lado, lembra daquela outra quando o traidor comenta com o agente Smith que quer saborear os “bifes imaginários”? A situação evocada no filme me parece valiosa metáfora para discutir a questão da ignorância social.

 

 

Mas o que mais me interessou no caso é que os canais midiáticos (e nesse ponto incluo hoje as mídias sociais) são os vetores por onde essa construção se dá: é no chamado espaço público midiatizado. Se por um lado as notícias podem contribuir na desinformação e no cultivo de ignorantes, por outro também se pode produzir notícias que ajudem a entender os processos e as discussões no campo científico. Considerar essa questão enquanto se planeja e se produz uma publicação de jornalismo científico é um bom passo no caminho certo.

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