Os ritmos diferentes do jornalismo e da produção científica

Na relação entre as informações que recebemos e o saber que construímos a partir delas, está a diferença entre poder ou não participar das decisões.

No post que fiz sobre o que Robert Proctor chama de agnotologia, chamou a minha atenção a relevância que ele conferiu na análise para o dueto pesquisa-divulgação. OK, nada de original: a força que é imanente ao discurso científico em nossa sociedade se potencializa quando entra no espaço público midiatizado, como Muniz Sodré se referiu ao nosso atual complexo tecnológico de recebimento e compartilhamento de informações. E um dos modos pelos quais o científico é exposto nesse espaço público é por meio do papel de especialista consultado pelos veículos de comunicação.

Claro, tem-se os blogs mantidos por pesquisadores e divulgadores científicos; multiplicam-se os documentários em que assuntos são apresentados e relativamente esmiuçados, e as publicações comerciais voltadas para a divulgação de notícias relacionadas às Ciências estão cada vez mais sofisticadas em seu desenho e layout, buscando atrair mais leitores. Ou seja, a ciência pode ser explicada diretamente por quem atua na pesquisa, produções audiovisuais bem feitas mostram mais e melhor e, em boa parte dos periódicos dirigidos à população, por mais que estejam submetidos à lógica comercial, pode-se encontrar ao menos o mérito de estimular a busca por uma visão sobre a Ciência menos associada ao que se pode chamar de “lado negro da educação”.

O ponto é que, quando se fala em jornalismo científico – ou jornalismo de ciência, como se propõe na Wikipedia – se tem de levar em conta as diferenças entre os campos, e uma delas é o ritmo de divulgação de novidades, ou a produção de conteúdo dentro de um determinado tempo. O tempo de produção do jornalismo se acelerou cada vez mais, não só por conta da tecnologia como também pela construção da notícia em torno dos fatos. O tempo de produção da ciência tem ritmo diferente no que tange ao aspecto da divulgação, que só ocorre, via de regra, após as etapas de pesquisa terem sido concluídas – mesmo que se trate de um projeto de longo prazo. John Rennie, que foi editor da revista especializada Scientific American, afirma essa diferença no trecho  de um artigo publicado no jornal The Guardian em janeiro deste ano que reproduzo abaixo:

Scientific publication is thus like a debutante’s ball: it formally presents a discovery to society but makes no guarantees about its eventual prospects. Yet journalism typically treats the publication of a paper in a journal as a newsworthy, validating event.

Ou seja, mesmo que se divulgue um resultado confirmado de um trabalho de pesquisa, não convém tratá-lo como um consenso científico – isso ocorre muito raramente e após grande esforço de validação. O ritmo usual de publicação de novidades e descobertas nos veículos jornalísticos não leva isso em conta, e muito provavelmente a descoberta de hoje pode acabar não sendo retomada mais tarde – quando poderá ter sido validada pela comunidade científica, posta em dúvida ou revogada. Além do efeito “sensacionalista”, tem-se a perda de uma recuperação histórica do assunto.

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