Testando o crowdsourcing via Foldit

Repercutiu na semana passada uma notícia intrigante: jogadores do videogame online Foldit teriam descoberto uma forma estável da estrutura da protease, uma das proteínas do vírus HIV que permite a sua reprodução dentro das células. Essa estrutura era objeto de pesquisadores há anos. O jogo em si não é novo, e já era bem conhecido nos Estados Unidos; o que parece ter provocado mais atenção foi o fato de envolver uma possível cura para a AIDS. O fato de se ter publicado o resultado na revista Nature também ajudou.

A notícia deu conta do trabalho de crowdsourcing promovido pelo game online Foldit (“dobre”, em uma adaptação bem livre), que foi criado por pesquisadores do instituto Médico Howard Hughes, da Universidade de Washington e lançado em 8 de maio de 2008. A história da criação do jogo é bem interessante. O resumo: o pesquisador e bioquímico David Baker, que já trabalhava na pesquisa da estrutura das proteínas e no papel dos aminoácidos usando recursos computacionais compartilhados por meio do Rosetta @home, encontrou um amigo que é cientista da Computação e discutiu com ele o problema. Um pouco de network e muito trabalho depois, surgiu o game.

Poder computacional + inteligência humana + diversão

O crowdsourcing – ou a sabedoria das multidões, como se costuma falar – se mostra potente ferramenta neste caso, pelo que li. Embora um computador possa fazer trilhões de cálculos, não se consegue ainda simular a intuição e as ideias de um ser humano na predição de estruturas – e justamente por isso que foi possível que um grupo de jogadores encontrasse uma estrutura bem próxima do estado mais estável da protease.

Alguns estudos sobre as iniciativas de crowdsourcing no Jornalismo já apontam para uma mudança nos papéis: enquanto o leitor se torna também produtor de conteúdos, o jornalista precisa agregar a gestão (ou curadoria) dos conteúdos com a sua função de produtor. Algo similar ocorre no Foldit: os resultados estão sendo usados para comparação com dados obtidos em laboratório, com os cientistas realizando um trabalho de curadoria a partir do que os jogadores produzem.

Saber que forma estável é essa é importante para que se possa entender que recursos podem ser acionados para inibir, provocar ou alterar efeitos de uma proteína – e, por extensão, os efeitos em um determinado gene. O legal é que com isso surge uma forma divertida (viciante, pelo que li) de apoiar estudos relevantes. Parece-me que outra consequência é que, ainda que de uma forma bem ligada à jogabilidade, às regras de funcionamento e recompensas do jogo, o usuário aprende algo sobre ligações químicas – há também um ganho de conhecimento por parte dos jogadores.

Ou seja: a adição de recursos computacionais ajuda, mas a cooperação entre inteligências é que chega mais perto de resolver. O modo como o game foi estruturado parece favorecer a compreensão básica, com desafios mais simples feitos à guisa de tutoriais que preparam os jogadores/colaboradores para os verdadeiros quebra-cabeças: dobrar, desdobrar e encontrar a forma mais estável de proteínas relacionadas com pesquisas sobre organismos, doenças e medicamentos.

Já fiz minha conta, via Facebook, e vou experimentar o jogo nesta semana, para postar algumas impressões a respeito.

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