Jornalismo Científico: fases e conceitos – 1

Assim como outras áreas especializadas do Jornalismo (e o próprio), o Jornalismo Científico também é visto como uma especialidade profissional dotada de história. Este post inaugura uma série que vou desenvolver a respeito, até mesmo como exercício para meu aprendizado. Isso significa que estou mais que aceitando comentários a respeito.

Uma das coisas que adianto do estudo que fiz até agora é que a presença da ciência nas notícias é algo quase tão antigo quanto a própria atividade jornalística. A diferenciação, ao que parece, se dá em uma via de evolução dupla, a da imprensa e a da multiplicação das especialidades científicas.

Segundo Warren Burkett (em Jornalismo Científico, Editora Forense Universitária), o pioneiro na atividade de apresentar informações obtidas pelo método científico para o público foi o secretário da instituição britânica Royal Society for the Improvement of Natural Knowledge, o alemão Henry Oldenburg. Com acesso à produção de diversos pesquisadores e conhecimento de outros idiomas, ele traduziu muitos textos para o inglês e o latim e os publicou na Philosophical Transactions, lançada em março de 1665 e dividida em duas publicações em 1886: a “A” (com artigos sobre Ciências Físicas, Matemáticas e de Engenharias) e a “B” (Ciências Biológicas). A publicação existe até hoje, em versões também online (acessíveis aqui).

No livro Jornalismo Científico (Editora Contexto), a professora, jornalista e pesquisadora Fabíola de Oliveira menciona também a Philosophical Transactions de Oldenburg como pioneira na divulgação de ciência de modo mais amplo que as comunicações interpares, via correspondências.

No entanto, do ponto de vista da forma de produção, estou em dúvida sobre se a Philosophical Transactions pode ser considerada publicação jornalística, embora seja, sem dúvida, um dos primeiros registros de divulgação científica organizada, em um molde que inspirou diversas outras publicações. Se levados em conta os princípios do Jornalismo de acordo com a tese primordial de Otto Groth (universalidade, atualidade, periodicidade e difusão), parece-me que o trabalho de Oldenburg preenche os requisitos.

A comunicação feita é do gênero epistolar, com cartas de pesquisadores relatando diversos fenônemos. São cartas nas quais inclusive uns citam conceitos e observações de outros, retratando a colaboração (e porque não dizer, a competição) interpares. O pouco que acessei do conteúdo tem esse padrão, como a exposição direta dos relatos dos experimentos e das ideias desenvolvidas então.

No entanto, me parece que o principal objetivo (e mérito) da Philosophical Transactions foi registrar, organizar e veicular os conhecimentos que se estavam sistematizando em campos como a Biologia, a Física, a Matemática e a Química, e nem tanto “traduzir” isso para os leigos ou interpretar os fatos. Está mais para uma revista científica de corte acadêmico que para uma Ciência Hoje, em uma analogia bem rápida. No entanto, vou deixar essa observação em caráter provisório, pois posso pensar diferente após mais estudo.

Usando o conceito que temos hoje, mencionando entendimento de Wilson da Costa Bueno, um dos mais respeitados estudiosos do Jornalismo Científico no Brasil, a respeito da diferença entre divulgação científica (feita pelo cientista) e o texto feito pelo jornalista, há uma diferença no âmbito dos códigos de linguagem usados em cada caso. Para ele, o suporte (jornal, revista, etc) não importa, pois o objetivo será, em boa parte das vezes semelhante (esclarecer as pessoas sobre os avanços científicos e tecnológicos). A forma e o modo de exposição do assunto causam a diferença.

Com isso, então se teria uma momento em que houve predomínio da divulgação científica, feita por cientistas, que provavelmente é mais antiga (um chute meu que quero verificar), e um momento em que notícias na acepção jornalística surgiram para cobrir fatos da ciência e da tecnologia.

Oldenburg não era cientista, mas era um divulgador da ciência em um contexto histórico no qual esse tipo de conhecimento era pouco acessível e nem sempre bem visto pelo clero. Isso borra um pouco a linha divisória; naquela época, os primeiros jornalistas faziam-se jornalistas, as notícias não eram pensadas e redigidas como hoje e o grande foco era a opinião e a política. O momento da ciência surgir como notícia, porém, estava por chegar.

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