Cientistas devem revisar notícias de ciência?

De um lado, o apelo à precisão do método científico. De outro, a evocação do interesse público. Qual dos lados está certo?

Lendo meus feeds, encontrei mais um post interessante do professor António Granado, no seu blog PontoMídia, sobre polêmica surgida no jornal britânico The Guardian: afinal, os jornalistas devem submeter as notícias e reportagens sobre ciência às suas fontes científicas?

O primeiro artigo foi assinado pelo editor-chefe da versão online da revista Nature, o jornalista Ananyo Bhattacharya (que comentou o seu post em outro blog), que basicamente afirma que os jornalistas não devem, por princípio, revisar matérias com suas fontes no meio acadêmico porque, em sua visão:

  • o jornalista tem o leitor em mente ao apurar os fatos e escrever suas matérias, preocupação que o cientista não tem;
  • os cientistas têm interesse em que seu trabalho apareça de forma positiva, sem controvérsias – coisa que qualquer pessoa bem informada sabe ser impossível em se tratando do método científico, que preconiza a replicabilidade dos métodos empregados e a discussão entre os pares sobre os resultados;
  • devido ao papel democrático que o jornalismo se impõe, é preciso se posicionar a cada momento de forma independente das fontes, e enviar o texto para revisão pelo jornalista é algo inaceitável, em qualquer das outras especialidades (política, economia) e que o jornalismo científico não deve se colocar como apartado desse princípio.

Claro que o texto suscitou diversos comentários (65, para ser exato) apontando para uma questão fundamental: o valor do preparo adequado dos jornalistas que cobrem fatos científicos para entender sobre o que vão escrever. Devo dizer que penso que alguns dos colaboradores acertaram na mosca: é difícil bater na tecla da não-revisão sem que representantes do meio acadêmico lembrem de casos em que se exagerou na manchete, ou nos quais o texto não refletiu com exatidão o objetivo da pesquisa, sem falar do significado de determinada pesquisa para a sociedade.

Tempo necessário para produzir e verificar informações científicas > tempo disponível para produzir notícias

Também não imagino que o cientista não se preocupe com a dimensão que a divulgação de sua pesquisa terá para os leitores, ouvintes e internautas. Seria algo de uma ingenuidade tremenda. Talvez Ananyo tenha querido dizer que os cientistas em geral não estão preocupados com o interesse do leitor em saber mais sobre o tema;  penso que isso pode ocorrer com algumas pessoas do meio científico – e com outras tantas do mundo jornalístico, também. Tomar esses casos como generalização seria o mesmo que desconsiderar os diversos casos de cientistas que trabalham muito para a divulgação de conceitos e saberes, alguns deles provavelmente tendo o exemplo de Carl Sagan e sua série Cosmos dentre as suas inspirações.

No entanto, considero que enviar o texto completo para a fonte é algo que dificilmente algum jornalista cobrindo o assunto para um veículo engoliria. Em uma assessoria de comunicação, acho que também não é a melhor saída, quase pelos mesmos motivos: o jornalista tende a perder a confiança na sua capacidade de apurar um assunto, perde a sua relativa “independência” para escrever e dar ângulo para o assunto, e corre riscos sérios: o de estourar o prazo para publicar, o de romper com determinada fonte especialmente complicada, o de não conseguir produzir um bom texto.

Nesse aspecto, o jornalista John Rennie, que trabalhou como editor-chefe na revista Scientific American, foi um dos mais sensatos. Rennie reconhece que Ananyo está correto ao defender a integridade do texto e a independência frente às fontes, mas observa que ele esqueceu que verificar as partes relevantes do texto, como menções à fonte e citações, bem como aspectos técnicos do que se está cobrindo (em especial durante a apuração), não é a mesma coisa que passar a matéria para o cientista revisar:

I don’t think Ananyo would object to a reporter asking a scientist during an interview, “Can you tell me if this description of your work is right?” If checking the wording during an interview is acceptable, why isn’t it later?

Os cientistas contra-atacam

A resposta ao artigo de Ananyo, publicado em setembro, chegou em outubro, com um artigo assinado pelos cientistas Petroc Sumner, Frederic Boy e Chris Chambers, da Escola de Psicologia da Universidade de Cardiff, no qual não apenas eles se contrapõem aos argumentos de Ananyo como defendem que a revisão de notícias por cientistas seja adotada como forma de melhorar o jornalismo científico – ou seja, a ciência deve ser tratada pelo jornalismo de modo diferente do que ocorre com a economia e a política.

Eles afirmam que o processo de validação de conhecimento, que envolve revisões por pares e submissão a críticas e testes torna um determinado artigo mais confiável; que os jornalistas raramente levam em conta a distinção entre pesquisa já validada e investigação em andamento; que não há ‘partidos’  ou ‘grupos’ na comunidade científica que desejem ‘conspirar’ em prol de um consenso ilegítimo; que raramente os cientistas cujas pesquisas são exageradamente avaliadas nas notícias conseguem benefícios para suas iniciativas; e, por fim, que os jornalistas enfrentam o grande desafio da precisão (vista aqui do ponto de vista científico, claro) nas notícias científicas, para o qual não estão preparados, motivo pelo qual é preciso ter uma postura diferente.

A repercussão foi maior, com 127 comentários, e novas sugestões. Houve até quem sugerisse que as notícias sobre ciência fossem avaliadas por um comitê de especialistas e aprovadas com um selo.

All articles could be put through this panel and those that are credible would receive a stamp of approval that would authenticate the science. If you have a 30 min deadline and want to trott out some sensationalist rot, then feel free to do so, but at least the public could see what was a “pear reviewed” article and what was scaremongering rubbish.

Novamente, embora reconheça que há diversos casos de temas científicos muito maltratados, não apenas por conta da imprecisão na descrição de termos e processos metodológicos, pela incompreensão dos processos de desenvolvimento e validação do conhecimento na roda científica e pela pressão do tempo e das vendas, há ideias que se tornam inviáveis, a menos que se trate de livros ou revistas anuais.

Que é preciso melhorar a qualidade do jornalismo científico, e inclusive reconhecer as iniciativas que têm qualidade nesse sentido, concordo plenamente. Daí a concordar com um comitê de especialistas revisando notícias existe uma distância imensa. Pelas questões éticas e até deontológicas da profissão, mas também pela falta de praticidade da proposta. Uma notícia sairia do forno velhíssima (não que notícias sobre pesquisa sejam publicadas exatamente ’em tempo real’), e provavelmente com uma angulação bastante conflitada, uma mescla frankensteiniana da visão do repórter com as correções do tal comitê.

Precisa de legenda?

A polêmica tomou conta inclusive de dois posts na rede PLOS, no blog do pesquisador David Kroll – o primeiro deles mencionando a fala da jornalista de ciência Trine Tsouderos sobre como procede com a verificação de dados com as fontes, que é anterior à discussão no The Guardian e foi mencionada por Ananyo. Nos comentários, profissionais e editores da área do jornalismo de ciência apresentaram seus argumentos, e mesmo discutiram suas experiências com fontes de diversas áreas das ciências. Uma discussão válida e necessária que ficou tempo demais na mesma, na minha opinião.

O caminho do meio

Nesse ponto, diante das opções, sou obrigado a concordar: em prol da qualificação do jornalismo e da melhoria da produção no jornalismo científico, a melhor saída é organizar o processo na exata necessidade de verificação. Ou seja, o que John Rennie e outros profissionais em diversos graus de experiência sugerem é que, em caso de dúvida, o jornalista deve enviar apenas os trechos que necessitam de revisão quanto à precisão da tradução do jargão científico para a linguagem do senso comum, ou as citações selecionadas, para sugestão – veja bem, não é revisão nem edição – de ajustes que o cientista considere necessários.

O jornalista deve deixar bem claro que espera observações e sugestões, que podem ser aceitas ou não, com a expectativa de sanar dúvidas ou mesmo promover a correção naquelas partes da matéria que estão suscitando dúvidas ou dificuldades de entendimento pelo jornalista. Outra saída possível apontada na forte discussão é contar com o apoio – e revisão técnica, nesse caso – de um cientista que não seja uma das fontes consultadas na matéria. No entanto, convém observar os contatos dentro da comunidade acadêmica para evitar problemas no uso desta solução

Não se trata de arrogância, até porque consultar a fonte em caso de dúvida é norma presente nos melhores manuais e nos mais qualificados conselhos que um profissional experiente pode passar para um colega novato. Eu diria que é a humildade sensata em prol da precisão – e da praticidade. Quem já teve um deadline jornalístico sabe como a pressão aumenta a cada minuto, e sai mais em conta checar os dados por telefone ou por e-mail – a maioria dos comentaristas apontou a conversa telefônica como o caminho preferido, embora tedioso, por ser mais imediato.

Uma das questões que sobra é: esse passo extra na rotina de checagem é seguido na produção de notícias sobre a ciência?

Nem de longe pretendo diminuir o papel dos cientistas no fluxo da produção noticiosa. Vejo que, se por um lado é importante garantir que a atividade científica seja corretamente dimensionada e reportada nas notícias, por outro seria difícil atribuir à imensa maioria dos pesquisadores mais uma tarefa complexa, dentre tantas: revisar e se responsabilizar por uma matéria que terá um alcance quantitativamente maior que um paper acadêmico. Evidentemente que outra fonte de reclamações é o que alguns chamam de “sensacionalismo” na divulgação da ciência, mas isso é tema para outro post.

Uma opinião sobre “Cientistas devem revisar notícias de ciência?

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