Quando uma quase-descoberta cientifica é notícia

Um provável indício científico recebeu destaque midiático nesses dias – uma ainda-não-resposta. É quando se começa a entender as diferenças entre o que é notícia e o que é discurso científico – e como os dois se relacionam.

A busca pela “partícula de Deus”, ou bóson de Higgs, foi notícia novamente na imprensa mundial. As equipes de pesquisadores do Grande Colisor de Hádrons (LHC) da Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (CERN) anunciaram no último dia 13 ter vislumbrado indícios da existência da partícula que falta ser descoberta para validar – ou determinar a revisão – do Modelo Padrão, uma das teorias predominantes da Física atual para o estudo das partículas físicas constituintes da matéria – ou seja, os 4% do universo que são explicados pela teoria.

As duas equipes, CMS e Atlas, teriam visto indicativos da presença da partícula em um experimento (o press release do CERN está aqui). As leituras independentes indicaram prováveis indícios em uma faixa específica de massa, entre 116-130 GeV*  pela equipe ATLAS, e entre 115 e 127 GeV nos dados da equipe CMS. No histórico dessa investigação, os pesquisadores estão trabalhando com a eliminação de faixas de energia, de modo a identificar resíduos.

Na teoria, o processo pelo qual algumas das partículas fundamentais ganham massa e se perceberia o bóson de Higgs envolve o conceito da interação eletrofraca, quando em uma determinada temperatura, o eletromagnetismo e a interação fraca (duas das interações fundamentais além da interação forte e da interação gravitacional, segundo a Fisica de Partículas) se fundem na força eletrofraca, que permite em tese o mecanismo de Higgs – e a criação de matéria, de acordo com a teoria. A importância dessa pesquisa se dá em diversos aspectos, ainda que não rapidamente transformados em aplicações – uma boa explicação do impacto da eventual confirmação da existência dessa partícula pode ser encontrado nesse post do site Hype Science.

E daí?

O caso é que esse indício, apontado com bastante atenção pela mídia (o jornal Zero Hora conseguiu ter um texto fácil e bem humorado assinado por Elton Werb a respeito do anúncio, que encontrei de graça neste link do Jornal de Santa Catarina), decorre de algumas circunstâncias bem interessantes, no que tange à fonte e á complexidade de tratamento dos dados:

  • os dados coletados no LHC são produzidos em quantidade gigantesca – gargantuélica – e levam muito tempo para serem analisados. Os dados apontados pela equipe no dia 13 baseiam-se em dados complementares aos apresentados em evento anterior, no primeiro semestre. Para se ter uma ideia, a estimativa é de que 15 Petabytes ao ano em dados brutos sejam gerados. Um petabyte equivale a um quadrilhão de bytes, ou mil terabytes.
  • Por isso mesmo, além de uma rede de computadores potente o bastante para distribuir esses dados para diversas instituições de pesquisa, cada uma das duas equipes, o projeto Solenóide Compacto de Múon (CMS) e o projeto Atlas, somam milhares de pessoas (o primeiro cerca de 3 mil. o segundo cerca de 4 mil), entre os sediados em Genebra e os colaboradores à distância.
  • Para poder validar a existência – ou a não-existência – do bóson de Higgs, as equipes precisam realizar diversos experimentos para que as análises obtenham significância estatística, entre outros atributos.
  • E, tornando mais complexa a investigação, a partícula em questão teria uma “vida curta”, decaindo rapidamente.

Por isso, a estimativa divulgada é de que em 2012 a equipe consiga ter progresso conclusivo o bastante para poder dizer se, enfim, o bóson de Higgs existe ou não.

O interessante é que todo esse buzz se deu por conta de uma quase-descoberta. As equipes encontraram indícios, não provas conclusivas, e realizaram ampla divulgação, que gerou forte interesse.

Notícia e paradigma

Essa atenção e o cuidado com a divulgação me parecem, de certa forma, sinais de que a comunicação entre cientistas e jornalistas foi bem organizada, pelo menos nesse caso – a ponto de um indício não-conclusivo valer notícia de destaque em todo o mundo. Naturalmente, os valores enormes de recursos financeiros e a qualidade (e quantidade) de recursos humanos investidos nessa pesquisa por si só merecem atenção, e os próprios pesquisadores e as instituições envolvidas devem prestar contas dos investimentos realizados.

Mas o que o bóson de Higgs vai mudar mesmo, sendo cientificamente descoberto ou descartado, é o paradigma da Física chamado Modelo Padrão, segundo o qual há partículas elementares que compõem a matéria. E isso não é pouca coisa.

Um paradigma científico, na acepção do físico téorico e historiador da ciência Thomas S. Kuhn, é uma explicação cientificamente construída e validada pelos pesquisadores a ponto de servir de base para as pesquisas em um determinado campo da ciência. Kuhn explica que essa validação não é cientificamente absoluta, mas comunitariamente (entendendo essa “comunidade” como restrito aos pesquisadores ligados a um campo específico de pesquisa) legitimada, enquanto ela fornecer a explicação necessária e útil para que a pesquisa da “ciência normal” (como Kuhn se refere a um campo do saber já consolidado e durante a vigência de um paradigma) caminhe dentro dos parâmetros. Como ele diz, é pela tendência à tradição que um campo científico permite ocasiões e esforços pelos quais o pesquisador experiente detecta algo fora do comum – distinto do paradigma:

Mesmo quando os instrumentos especializados existem, a novidade normalmente emerge apenas para aquele que, sabendo com precisão o que deveria esperar, é capaz de reconhecer que algo saiu errado. A anomalia aparece somente contra o pano de fundo proporcionado pelo paradigma.”

                          A Estrutura das Revoluções Científicas, cap. 5, pag. 92

A mudança de um paradigma começa quando pesquisas orientadas por aquele modelo começam a sugerir lacunas, falhas no funcionamento daquela explicação. O questionamento sugere investigações, anomalias surgem, descobertas são feitas; é a chamada crise, quando novas teorias buscam superar a antiga descrição de fenômenos. Isso gera uma nova fornada de pesquisas, até que uma tende a predominar como modelo mais aceito para explicar determinada parcela da realidade estudada por um campo científico.

Essa importância foi abordada em algumas notícias relacionadas à divulgação, de modo mais simples. Mesmo o recurso ao termo “partícula de Deus”, criticado pelos pesquisadores, acaba sendo uma tentação porque simplifica, usa uma referência mais direta e fácil. E, sejamos sinceros, se houver algo de polêmico, sensacional ou claramente urgente na manchete, ela tem boa capacidade atrativa, o que vale muito, seja na economia de atenção ou de informação.

Na verdade, alguns “apelidos” acabam por causar problemas – não é preciso muito mais que aquela expressão para levantar a discussão entre Ciência e Religião nos comentários das versões online dos jornais e blogs. É nessas horas que o nível do debate pode cair, e se perde a chance de realmente mostrar o que significa a pesquisa – e porque esses indícios são interessantes.

Quando se trata de uma investigação que pode redefinir o rumo das pesquisas nas próximas décadas, é preciso pensar que essa redefinição não se encerra nos laboratórios. As aplicações tecnológicas, sejam na criação de processos e aparelhos auxiliares nas pesquisas, sejam elas o resultado destas últimas, são cada vez mais rapidamente desenvolvidas e levadas ao mundo do trabalho e do consumo. Como um pesquisador envolvido na pesquisa disse a Zero Hora, é cedo para dizer que aplicações podem surgir dessa comprovação – como um dia não se soube dizer exatamente para o que serviria a nanotecnologia.

No meu trabalho na Universidade Federal do Pampa, de vez em quando faço essa pergunta (“para que vai servir essa pesquisa?”) quando consigo chegar com calma a uma pauta de pesquisa, e sei como é a ânsia de ter respostas para ela. Fica a dica para os jornalistas, inclusive a mim: tenham paciência.

Acredito que, mais que noticiar a descoberta ou o descarte de uma teoria, o que motivou o interesse, pelo menos em alguns casos de divulgação, foi levar ao conhecimento do cidadão o andamento de uma pesquisa importante, ainda que usando um recurso de linguagem que remete ao debate Ciência versus Religião, e mostrar o valor desses estudos, mesmo que não se consiga vislumbrar as aplicações resultantes. Vale pelo potencial educativo, acessível e instigante.

*Gigaeletronvolt, uma variação (um bilhão de vezes) do elétronvolt, que é definido como sendo a quantidade de energia obtida pela carga de um único elétron movido ao longo de um potencial elétrico de um volt. É uma unidade de medida comum na Física de Partículas, entre outros ramos da Física, e não tem valor padrão, devendo ser medido experimentalmente.
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