Aniversário de Stephen Hawking e divagações baratas

English: NASA StarChild image of Stephen Hawking.

Um dos aspectos da fama na mídia, em certos casos, é que ela nem sempre passa da superfície.

Nesta semana que passou, o físico teórico e cosmólogo inglês Stephen Hawking recebeu diversas homenagens por conta de seu aniversário de 70 anos, completados no dia 8. Por conta de diversos compromissos no trabalho durante a semana, acabei me dando de presente uns dois dias offline –  suficientes para perder a oportunidade de escrever e postar este texto bem no dia. Paciência.

Em uma conferência promovida pela Universidade de Cambridge, para celebrar a data entre seus pares da comunidade científica (ou seja, os cientistas mais reconhecidos do campo da Física e da Cosmologia) – à qual ele não pode comparecer por motivo de saúde, enviando palestra gravada –  ele contou sua história, o surgimento da sua enfermidade, e recomendou aos cientistas que “olhem mais para o céu e menos para os seus próprios pés”. Uma exortação relacionada com o seu alerta sobre a necessidade do ser humano de colonizar outros planetas –  significativa também por vir de alguém que aos 21 anos foi diagnosticado com uma doença degenerativa incurável.

Sobre o aniversário e a mídia

Confesso que ainda tenho que ler muito mais sobre a produção de Hawking e Física não é o meu forte – mas não poderia ignorar a notícia, pela importância e pela repercussão.  Ao invés disso, vou oferecer uma compilação sobre um pouco do que se publicou a respeito, com módicos comentários. Módicos como orégano em pizza:

  • A Folha de São Paulo foi um pouco mais além de usar informações de agências: trouxe mais detalhes da vida do físico, ouviu pesquisadores brasileiros a respeito e mencionou um embaraço na carreira de Hawking (a descoberta do “paradoxo da informação” anunciada por ele em 2004 e nunca comprovada) – até o momento, o único da lista a lembrar da “pisada na bola”. O Globo foi mais burocrático, o A Notícia (jornal que circula em Joinville e pertence ao Grupo RBS) mais ainda, e não consegui encontrar uma notícia relacionada na Zero Hora – a mais recente refere-se ao lançamento do livro The Grand Design – do qual se tornou comum dizer que “nega” a existência de Deus, embora eu desconfie de que não foi exatamente isso o que Hawking quis dizer.
  • Encerrando, o portal Terra tem uma galeria com 34 fotos de Hawking – vale também para dar uma ideia mais clara da doença, conhecida nos EUA como Doença de Lou Gehrig e no Reino Unido como Esclerose Amiotrófica Lateral. Não que isso tenha impedido Hawking de dar continuidade à sua carreira – e à sua família (com dois casamentos, três filhos e três netos).

Breve divagação “Kuhniana”

Se entendi bem as idéias de Thomas Kuhn e alguns comentários sobre o aniversariante, o paradigma da Teoria da Relatividade, desenvolvido por Einstein e aceito pela comunidade de pesquisadores da Física, foi reforçado pelo trabalho de Hawking ao teorizar sobre a formação do Universo e o funcionamento dos buracos negros, talvez a realização menos lembrada dentre as suas colaborações. O status de celebridade científica – condição alcançada pela constante presença midiática –  foi potencializado pela sua condição de saúde e pelo trabalho de divulgação da Ciência, e mais recentemente pela participação na polêmica Ciência versus Religião.

Enquanto o trabalho de Einstein teria provocado a queda do paradigma da Mecânica Newtoniana, pela revolução que a Teoria da Relatividade causou em diversos setores, da Astrofísica à Física das partículas, Hawking ampliou o campo de estudo sob esse e outros modelos, combinando contribuições da Teoria da Relatividade, da mecânica quântica e da termodinâmica para estudar o comportamento dos buracos negros – dessa forma, melhorando, incrementando o paradigma em sua aplicabilidade.

Falando a respeito da amostra que linkei acima, as contribuições da carreira de Hawking, embora mencionado, pareceram-me menos evocadas que a saúde do físico britânico e a sua importante e provocativa atuação como divulgador da ciência. As “tiranias do tempo” e do espaço na mídia tradicional – e nas novas mídias também – podem surgir como desculpa (o hipertexto, também, é muito pouco usado, talvez por conta da forma como as métricas são computadas. Ponto para o paywall?)

Segundo Kuhn, uma comunidade científica começa a vivenciar um estado de crise de paradigma quando surgem evidências de que o modelo teórico base das pesquisas não fornece respostas condizentes com a realidade. Confirmar e aperfeiçoar um paradigma não é algo ruim, assim como uma revolução científica também não é: as evidências, as pesquisas e as perguntas candentes em cada momento ditam o movimento coletivo em prol de pesquisas e respostas melhores.

O caso é que, a concordar com Kuhn, a decisão sobre a validade de um paradigma acompanha toda uma movimentação entre pares, ou seja, há também fatores micropolíticos; o momento social, econômico, tecnológico também influem, para além (e dentro) da discussão científica. Atualmente, penso de modo óbvio quando digo que nessa lista de fatores é conveniente também incluir a presença e a legitimação de pesquisadores via jornais, revistas, programas de televisão e canais de distribuição de conteúdo na Web. Esse espaço público de tamanho aumentado potencializa a discussão: embora não se chegue ao ponto de se debater a validade de um modelo de pesquisas entre o público em geral, está bem mais fácil de conhecer e comentar sobre uma pesquisa em particular ou algum assunto relacionado com a “Ciência Normal”, como diz Kuhn. E essa relação entre as discussões científicas e os fluxos de comunicação está mais acessível hoje, embora não muito clara.

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