Cinco motivos para notícias de ciência nos jornais do interior

Acompanho alguns (menos do que gostaria, é verdade)  dos jornais do interior do Rio Grande do Sul, no meu trabalho como ‘jornalista de universidade’. Noto, informalmente, que há poucas notícias abordando a produção de ciência. Contando (de novo, informalmente) algumas matérias sobre investigações científicas conduzidas nas universidades presentes na região (Urcamp e Unipampa), além de institutos públicos dedicados a pesquisas, e raras (e por isso mesmo, meritórias) pautas espontâneas sobre ciência, infiro que este é um ramo de notícias que possui ótimo potencial.

Uma das características dos jornais de pequenas cidades – e escrevo isso referindo-me à maior parte dos países – é a escassez de recursos: do orçamento à equipe, tudo é enxuto. Se por um lado a publicação não corre o risco de sofrer um downsizing, por outro a disputa de mercado (quando há mais de um jornal circulando na cidade) fica restrita a estratégias de publicidade, em maior escala, e na busca pelas matérias que a vivência indica como ‘as que vendem mais’.

Nessa busca por novidades e diferenciais, a ênfase na criação e produção de editorias especiais sobre ciência é uma das opções para os proprietários de jornais (a melhoria nas versões eletrônicas é outra, mas fica para outro dia). Além de cumprir com um dever moral, o de levar conhecimento útil para o seu leitor, e social, ao contextualizar os esforços e resultados da ciência normal à luz do desenvolvimento humano, o jornal obtém uma chance de desenvolver uma seção diferencial que pode ser  muito interessante – e, assim, gerar receita pela qualidade.

Alguns motivos pelos quais considero que o jornalismo sobre ciência e tecnologia pode fazer muito bem aos jornais interioranos:

1 – Escassez = valor

O material produzido pelo jornal a partir de um determinado fato que está chamando a atenção ou mesmo sobre um assunto insuspeitadamente atrativo é algo valioso porque é produção própria: é uma visão do veículo sobre o tema. Hoje, com a WWW oferecendo toneladas de conteúdo, além do serviço de press releases pelas instituições de pesquisa e de ensino superior (eu mesmo trabalho com isso) e da produção própria em outras áreas, os jornais têm farto material para fechar suas edições se considerarmos a variedade de temas/editorias. Daí alguns autores dizerem que o Jornalismo deixou de ser uma atividade análoga à caça de noticias para se tornar uma lavoura de fontes e informações.

No entanto, uma notícia ou uma reportagem sobre um tópico que demande análises por parte de pesquisadores ou sobre um estudo que se relaciona com uma atividade econômica relevante, ou um dano ambiental, por exemplo, tem valor pelo esforço feito em garimpar  (note a diferença da atividade-metáfora) dados, relatos, imagens e pela criação de contexto. Os leitores habituados aos textos do jornal (ao menos, os mais atentos) vão notar que se trata de uma matéria diferenciada, especial – que não irão encontrar em outra publicação.

2 – Contexto gera identificação

Uma coisa que ocorre muito nos textos sobre ciência é que por vezes são muito curtos, impedindo que se possa fazer aquela ponte entre o estudo realizado pelo pesquisador e a importância desse estudo, seja para o campo científico, para um projeto futuro, uma aplicação tecnológica ou uma mudança de processo. E tem muita pesquisa valiosa acontecendo nas regiões gaúchas da Fronteira Oeste e da Campanha – diversas delas com potencial já de aplicação tecnológica, para dar apenas um exemplo das contribuições. Dar a saber esses esforços – especialmente os locais – para os cidadãos ajuda a provocar uma maior identificação entre leitor, jornal e instituição/responsáveis pela pesquisa.

Conferir contexto à matéria, porém, não é apenas indicar uma aplicação imediata ou informar para o que vai servir tal ou tal estudo. Dentro do possível, é útil contar como a pesquisa surgiu. Às vezes o motivo é uma pesquisa anterior, mas a realidade que nos envolve também é notada pelos cientistas, apontando para a solução de questões já postas. Alternativamente, as pesquisas também podem levar à proposição de novas atividades econômicas, atitudes profissionais, encaminhamentos políticos e hábitos pessoais.  E quem trabalha com notícia sabe que assuntos novos e velhos podem render pautas boas.

3- Variedade editorial

Quando cria uma seção de C&T, um jornal interiorano expande o leque de assuntos em potencial. Com isso, não apenas amplia a chance de ter pautas atrativas para o seu público cativo, por assim dizer, mas favorece a aquisição de novos leitores. Há quem busque se atualizar sobre quem é quem na coluna social, outros se interessam pela política local – e com certeza há quem gostaria de ler sobre as pesquisas e atividades científicas em andamento. Uma boa base de leitores e assinantes (seja de versão impressa ou online) ajuda a diversificar as demais receitas.

4 – Contribuição para tipos de desenvolvimento

Embora possa parecer difícil em algumas situações verificar e comunicar exatamente o valor de determinada contribuição, em outros casos a identificação é mais fácil. O caso de uma pesquisa conjunta envolvendo uma concessionária de energia e uma universidade, sobre o uso de sensores para ajudar a medir a eficiência da irrigação em lavouras de arroz, por exemplo, pertencem ao segundo tipo. São iniciativas que já trazem aplicações voltadas para um determinado setor do cotidiano, seja no âmbito produtivo ou pessoal. Associações e potenciais investidores e empreendedores locais (por que não?) podem se interessar pelo assunto. O poder público é outro potencial candidato a parceiro, em alguns casos.

Mas e quando a pauta recai sobre a chamada pesquisa básica, como indicar a importância?

Um primeiro ponto que sugiro considerar  na apuração de qualquer pauta sobre ciência é que alguns estudos se dedicam não a uma aplicação imediata, mas sim a estruturar uma determinada teoria, expandindo os campos passíveis de serem analisados por ela, a melhorar os métodos orientados por esse modelo – ou mesmo evidenciar a necessidade de mudanças na condução de pesquisas. Por isso mesmo são importantes no sentido de articular a teoria e as ferramentas de um determinado campo de conhecimento.

O investimento feito na construção do CERN, que pesquisa diversas interrogações da Física além do bóson de Higgs, dá uma ideia do valor inestimável que a pesquisa básica da ‘ciência normal’ possui. Há algum tempo atrás se poderia perguntar sobre os fundamentos da nanotecnologia e qual a serventia disso. Hoje as possibilidades já em fase de desenvolvimento respondem muito bem à típica pergunta “para que serve essa pesquisa?”. Ajudar a expandir a compreensão pública sobre a ciência, em vista de um despertar da consciência crítica, é uma ótima causa que serve à cidadania.

5 – Formação de profissionais

Os maiores recursos de qualquer empresa ou iniciativa na área de comunicação são o talento e a competência humanas.  Em um cenário com equipes enxutas, como costuma ser o caso de empresas jornalísticas do interior, o ideal é que se invista na capacitação constante dos jornalistas.

Aprender a trabalhar em contato com pesquisadores de diversas áreas do conhecimento é uma grande oportunidade de enriquecimento cultural e intelectual. Não se vai aprender nada por osmose, ou seja, ninguém vai conseguir um diploma em Agronomia ou Medicina Veterinária apenas por cobrir a seção de notícias do campo. O ganho é de outra natureza, e listo aqui alguns dos aspectos desse aperfeiçoamento:

  • exigência de maior cuidado com a precisão: é preciso levar em conta que os cientistas usam linguagens muito específicas de seus campos de atuação profissional, e o trabalho de traduzir corretamente as análises e ainda contextualizar de forma transparente e correta o teor do que se está noticiando aumenta muito. É bastante fácil cometer um erro. O que parece fazer sentido no meio-termo do senso comum pode estar equivocado aos olhos do pesquisador. É bom também levar em conta que o cientista integra uma comunidade profissional, portanto ele está sendo visto – e avaliado – pelos seus pares em especial quando fala sobre o seu campo de atuação – o que aumenta a preocupação com a fidelidade e a adequação aos fatos comprováveis em uma matéria publicada na imprensa.
  • melhora na qualidade da apuração e do contato com as fontes: Em vista do item anterior, o jornalista que se propõe a trabalhar com notícias e reportagens sobre ciência precisa se predispor a checar bem os fatos e as citações, evitando ao máximo os erros. Em caso de erro, a melhor atitude é sempre entrar (e se manter) em contato e oferecer uma forma de corrigir o engano, em especial em edições online, e procurar repará-lo rapidamente. Errar é humano. Promover a reparação (e evitar o mesmo erro de novo) é sublime.
  • aperfeiçoamento das capacidades cognitivas e interpretativas no contato com outras áreas do conhecimento: Ao trabalhar com áreas distintas das ciências, o jornalista tem chances interessantes a aproveitar, desde que tenha atenção ao que está fazendo e, é claro, que disponha de tempo e disposição para afiar suas ferramentas: pode ampliar a sua dieta de leituras técnicas, para entender melhor algumas questões; aumentará o seu conhecimento sobre o vocabulário e os temas das áreas que cobrir com mais frequência.

 

O que você pensa a respeito: você pode sugerir outros pontos para este post?

Aguardo seu comentário 😉

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