A Folha realmente teve o seu “Boimate”?

Ao ler o texto no Observatório da Imprensa sobre o “boimate” da Folha de São Paulo – e consequentemente ir atrás da matéria em questão –  pensei que é nesses momentos em que o trabalho jornalístico apresenta problemas que se pode focalizar onde melhorar – mas sem extrapolar na crítica.

Boimate?!?

Antes de continuar, uma recuperação histórica.

O caso do boimate é um dos exemplos mais lembrados de “barriga”, termo do jargão jornalístico que designa uma informação que depois se revela falsa. Segundo Rabaça e Barbosa, no Dicionário de Comunicação (6ª edição), barriga é “notícia inverídica publicada por órgão de imprensa, geralmente com grande alarde e sem má-fé, na tentativa de furar os concorrentes. Resulta de informação sem fundamento, inidônea, e posteriormente desmentida pelos fatos, causando grandes desgaste e descrédito à publicação”.

Na edição nº 764, de 27 de abril de 1983, a revista Veja publicou uma matéria com base em informações publicadas na revista New Scientist, sobre uma suposta pesquisa realizada na cidade de Hamburgo, Alemanha, na qual os cientistas teriam desenvolvido a fusão de células de bovinos com as células de um tomateiro, em uma “revolução” agropastoril. O caso é que o editor responsável não sabia do costume da revista de fazer brincadeiras de 1º de abril com os leitores com notícias fictícias. A situação virou piada com status de lenda, o tipo de história que serve de exemplo para colocar os jornalistas em estado de alerta também na apuração de notícias de ciência. É um dos casos que serve como “moral da história” para as narrativas de profissionais que sucumbem à tentação de espetacularizar a pesquisa científica e a inovação tecnológica.

Para quem ficou curioso – eu mesmo nunca tinha acessado a matéria, pois nasci em 1979 – eis a imagem da matéria, copiada do blog de Joãozinho Santana. Acesse a imagem também em http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx.

Uma curiosidade: na mesma edição que se tornou histórica pelo engano, a revista Veja noticiou fato semelhante ocorrido na imprensa argentina: o general Galtieri, à época em prisão domiciliar, teria dado uma entrevista para o jornal britânico The Times, e o conteúdo da matéria teria sido replicado por uma agência de notícias italiana para a América Latina (veja no acervo digital na página 64). O caso é que a entrevista foi totalmente inventada, como brincadeira de primeiro de abril. A tensão pela Guerra das Malvinas (1982) permite imaginar o tamanho da encrenca em que diversos jornais se enfiaram. E o castigo para a Veja veio a cavalo.

Foi uma “barriga”?

O erro na informação ou na compreensão dos fatos e do contexto, a despeito de todos os esforços de “tolerância zero” e esquemas de checagem, é fato ao qual toda e qualquer atividade informativa está sujeita. E sendo a notícia uma forma de conhecimento, se concordarmos com Robert Ezra Park, é necessário verificar o que se pode fazer de concreto para que, mesmo em um patamar intermediário entre o senso comum  e o senso científico, a notícia seja um conhecimento correto, dentro de suas possibilidades.

De mais a mais, penso o seguinte: se em um jornal do calibre de uma Folha de São Paulo, com muitos recursos, há quem aponte erros, o que sobra para um jornalista em uma universidade no interior do Rio Grande do Sul, que por vezes redige matérias sobre pesquisas?

No caso apontado pelo observador Luciano Martins Costa, embora não tenha havido um erro grave de informação, segundo ele houve um erro de análise, o que teria prejudicado o ângulo da matéria, que focaliza mais a concorrência entre pesquisadores pela primazia na criação de uma alternativa/complemento à pecuária como produtora de proteína animal que as consequências e a busca de soluções para um “apagão dos alimentos”. Ou seja, o ângulo da matéria, considerado mais anedótico que informativo, prejudicaria a compreensão do contexto mais relevante.

A leitura de Martins Costa provocou comentários ácidos, inclusive apontando para uma suposta retroalimentação equivocada por parte do autor do artigo. Um dos comentaristas generaliza ao dizer que o jornalismo científico brasileiro é malfeito e desinformado. Os comentários publicados na matéria online da Folha de São Paulo variam do entusiasmo ao deboche, com alguns apontamentos sobre o valor das pesquisas e uma discussão polarizada sobre vegetarianismo e capacidade intelectual.

Minha Avaliação

Tema e Angulação

Pessoalmente, considero que o ângulo realmente poderia ter sido um pouco diferenciado. Vamos convir que, em termos de tradição apelativa, o mais chamativo é mesmo o “hamburguer de laboratório” e pequenos truques como a adoção do “versionamento”, tomado de empréstimo à Computação – “carne de soja 2.0” – são recursos mais rápidos. Mas daí a considerar o assunto como “barriga”, creio que há uma distância. E se comparar as duas matérias, a distância é maior ainda.

No próprio site do Encontro Anual da Associação Americana pelo Avanço da Ciência – o pomo da discórdia nessa questão – o tema do evento dá o tom: as interações entre diversas atividades humanas globais que se relacionam no uso de três elementos estratégicos: água, energia e alimento.

The focus of the 2012 meeting, then, is on using the power of electronic communications and information resources to tackle the complex problems of the 21st century on a global scale through international, multidisciplinary efforts.

Diante dessa descrição, embora reconheça o mérito da escolha do subtema “desenvolvimento de novas fontes alimentares”, por assim dizer, eu diria que outros pontos do evento poderiam ter sido abordados. O próprio fato da AAAS escolher a temática do entrelaçamento do uso da água potável, da busca de energia e da produção de alimentos já indica uma riqueza de pautas na AAAS. Nesse ponto, explorar a história do bife de laboratório não chega a ser um crime, penso. É apenas uma escolha pelo mais curioso e facilmente acessível – quando se poderia ter outras discussões interessantes rendendo pauta.

O ângulo escolhido, a meu ver, tem um mérito ao expor a concorrência entre os cientistas. É necessário que o leitor saiba, tome conhecimento, de que o debate científico existe e pode assumir as formas mais iluminadas e os caracteres mais ferinos. A gente às vezes gosta de cultuar uma imagem de que um evento científico ou cultural tem de ser como um concílio – e isso que a maioria de nós não imagina que maquinações ocorrem em um concílio – como se todos fossem subitamente tocados pela verdade. Historicamente, nada mais falso.

Mas a ênfase da matéria não pode ficar apenas nisso: é preciso ir atrás do que provoca a divergência, verificar os fatos. A repórter conseguiu que os cientistas falassem superficialmente sobre o status de seus projetos, o que, se não elucida toda a questão, pelo menos ajuda a ficar mais alerta. Martins Costa criticou o uso da expressão “meta inusitada” para se referir ao objetivo dos projetos concorrentes. Sou obrigado a conceder-lhe razão: se a própria matéria toca na questão da procura por formas mais eficientes de produção de carne, seja a partir de células animais ou vegetais, como um fator relevante, chamar esse esforço de “inusitado” soa estranho, anedótico. Inusitado, para mim, seria a tal pesquisa japonesa de reaproveitamento de fezes como fonte de nutrientes – por sinal, divulgada em todo o mundo como verdade e depois apontada como uma provável piada bem sucedida.

No entanto, para que se caracterize como “barriga”, as tais pesquisas teriam de ser falácias, não se comprovarem por meio de fatos – e a repórter foi, no mínimo, prevenida. Quanto a termos uma crise alimentar, parece-me que teríamos que realmente cotejar os dados de produção mundial, a destinação dessas produções e adicionar à análise a importante questão do acesso econômico à comida. Se a questão é de erro de análise sobre a problemática ambiental no que tange à pecuária, novamente seria válido contar com dados que permitam mensurar esse dano. Aí podemos ponderar com mais propriedade se o contexto alimentar é realmente tão complicado assim.

Em suma: sou de opinião que o ângulo poderia ter sido outro, o tema também, e que a prevenção contra uma “barriga” pode ter levado à escolha pela faceta da concorrência entre projetos. Daí a comparar com um novo caso “boimate”, considero um juízo apressado. Uma pesquisa cuidadosa vai permitir dizer se as pesquisas noticiadas são realmente falácias, o que comprovaria a informação inverídica. Talvez seja o caso de melhorar a descrição ou mesmo criar a “barriga interpretativa”: aquela que ocorre quando os fatos são reais, mas o contexto está fora de centro.

ADENDO: Links comprometem

Uma coisa que não foi mencionada na discussão e da qual senti (e sinto quase sempre) falta é dos links para artigos, páginas dos laboratórios ou outras informações úteis como elementos da pauta, reclamação antiga, aliás, dos pesquisadores do jornalismo online. Quem já fez algumas pautas de ciência sabe que, via de regra, os pesquisadores divulgam um resultado ou uma análise após obterem o aval de sua comunidade científica por meio da publicação em periódicos de suas áreas respectivas.

Publicar o link dá outro caráter para o trabalho, pois exige que você busque o máximo de exatidão. Afinal, você está colocando ao lado de sua apuração um documento com a “versão oficial” para a pesquisa. Pode ajudar a validar um argumento ou a encontrar um erro, depende do seu cuidado com a matéria, e de variáveis como o tempo e a revisão. E acaba sendo uma forma de explorar, na prática, as características definidas como diferenciais do jornalismo feito para a web, como a hipertextualidade e a memória, as duas que mais me chamam a atenção.

Outro motivo pelo qual me parece boa ideia colocar os enlaces para os artigos é que favorece o acesso para os leitores mais curiosos ou especializados; linkar para a página dos laboratórios do pesquisador ajuda no contato. E é como se você dissesse: “Aqui está a matéria e eis algumas informações a mais para você”. É um ato de confiança no seu taco, valoriza o trabalho. Pena que muitas empresas jornalísticas não tenham isso como prática corrente.

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