Notícia: saber a meio do caminho entre o homem da rua e a academia?

Uma das noções mais interessantes sobre a notícia eu conheci alguns anos após a festa de formatura. Enquanto reunia material para um projeto de mestrado que acabou não sendo realizado, deparei com a menção a um artigo do sociólogo norte-americano Robert Ezra Park. A ideia desenvolvida no texto é a de que a notícia é uma forma de conhecimento que está em um ponto intermediário entre o saber do senso comum – ou, para usar uma metáfora bem conhecida do jornalismo, do “homem na rua”, e o entendimento organizado e verificado do cientista.

Onde fica o meio do caminho?

O “conhecimento de” alguma coisa consiste naquele saber construído pela acumulação da experiência, pela vivência pessoal, pelos aforismos e ditos populares, pelos saberes, dizeres e fazeres que integram o que se poderia chamar de “arcabouço popular”, e deriva da acomodação do ser humano a um determinado “mundo”, a um lugar social. É informal, não verificado, bastante próximo da intuição e do instinto, segundo Park. O “conhecimento acerca de” alguma coisa, por seu turno, é sistemático, metódico, e resulta da busca constante das causas e efeitos na natureza.

Sendo distintos, Park concebe essa apropriação de conceitos propostos por William James e outros autores como sendo um “contínuo” de conhecimento. Antes de elevar um ou outro, o sociólogo e jornalista os descreve como partes distintas (e com diferentes funções) desse conjunto de conhecimentos, em que a variação se dá pela forma de obtenção desse conhecimento. E é aí que a notícia jornalística encontra seu espaço, como uma forma de conhecimento que possui algumas características, que procuro apresentar de acordo com o artigo de Park:

  • tem potencial de provocar discussão e ação na sociedade;
  • é composta de “informações esperadas”  e fatos insólitos, organizados por critérios de interesse;
  • na sua forma, tende a conferir detalhes que permitem a verificação do que noticia (não por acaso, as Seis Perguntas: quem, o que, onde, quando, como e por que) – ou seja, possui um certo grau de sistematização e verificação, em grau diferente do conhecimento proporcionado pela ciência
  • tende a permear um determinado público, que possui o seu universo de discurso específico (entendido aqui como “vocabulário especial bem compreendido e apropriado a situações específicas”) com uma gama variada de assuntos, e é veiculada de forma aberta, acessível e cotidiana ao público – fatores que a aproximam do conhecimento de senso comum, que é amplamente disseminado em uma comunidade, ao contrário do conhecimento científico, cuja posse exige treinamento e especialização.

O meio do caminho, então, refere-se ao esforço e aos requisitos de acesso (repertório de saberes, treinamento cognitivo) para conhecer algo. Ler e entender uma notícia (em especial para encontrar nela os erros) é mais complexo que lançar mão de um conhecimento pertencente ao reino do senso comum, e menos complicado que o acesso e uso do conhecimento altamente especializado de qualquer campo científico.

No meu caso, como jornalista de uma universidade federal, tenho acesso a pesquisadores em diversas fases de especialização e de muitas áreas do conhecimento. Imagine a grande variedade de pesquisas em andamento e artigos sendo publicados e você verá que o que me parece muitas vezes um privilégio (e eu acho que é)  requer todo o cuidado. É um daqueles casos em que parece que você é o que se chama em inglês de “jack of all trades, master of none” – o nosso popular “pau para toda a obra”.

A especialidade deve ser “noticiar”

No entanto, não se estuda durante quatro anos para chegar à conclusão de que não se sabe nada. Mesmo que o estalo só venha depois.

Se o foco é em jornalismo científico, é preciso levar em conta que, por mais que você se sinta na necessidade de ler muito sobre ciência, ou mesmo sobre um determinado ramo da Ciência por motivo profissional, você ainda está fazendo jornalismo. Isto significa que ainda é preciso redigir um texto claro, acessível e que provoque algum interesse.

No meu dia-a-dia, por enquanto não posso dedicar mais tempo às pautas de pesquisa, porque a equipe é bem enxuta e há tanta coisa para informar que realmente, creia, é complicadíssimo dar a atenção devida. Não chego a ter intensidade da pressão de tempo que um colega que trabalhe em veiculo tem, porque quando separo uma pauta para aprofundamento, eu procuro mostrar o valor, os objetivos e as condições de realização daquele trabalho, retirando o peso da factualidade. Penso que abordar um tema científico tendo o deadline como regente da orquestra é receita para erro e desastre, e que vale a pena esticar um pouco mais a apuração, caso seja preciso. No entanto, a grande variedade de demandas a atender impede que eu dê mais tempo para preparar matérias mais aprofundadas.

Então, recentemente empreguei uma variação da checagem de fatos, etapa da apuração que normalmente se sugere seja feita por telefone. Antes que me atirem pedras, quem deu a idéia foi o ex- editor da Scientific American John Rennie. Devo dizer que foi instrutiva e menos estressante, gerando ainda uma interação que nem sempre se consegue apenas pelo telefone.

Como foi

Recebi como início da pauta uma mensagem bem curta, dando conta de que um professor da universidade teve um capítulo de livro publicado em parceria com outros pesquisadores, de outras instituições. Não preciso dizer que, por conta da grande quantidade de demandas, descartei de cara o contato com os demais autores. A correria e o fato de eu exercer as funções de assessor de imprensa me fazem pensar que não chega a ser um pecado.

O capítulo, como o livro, está disponível online, em inglês. Como não conseguia contatar o pesquisador por telefone no momento da apuração, li o artigo, redigi algumas notas a respeito. Com base no que tinha em mãos, comecei a redigir o texto, procurando divisar a forma como a pesquisa foi feita e a importância dela para o setor primário da economia, que é bastante forte na região onde vivo.

Em especial, dois dos parágrafos continham mais detalhes técnicos relacionados à pesquisa: era ali onde se concentravam os termos técnicos a traduzir, a  análise do trabalho feito, as leituras procedentes da pesquisa. Seguindo e adaptando o conselho de Rennie à minha realidade, copiei e enviei os dois parágrafos por e-mail ao professor, solicitando que me ajudasse a verificar a correção dos termos técnicos e enviando mais umas três perguntas nas quais confirmei o rumo da minha análise.

O pesquisador respondeu com algumas observações sobre termos a corrigir, sugeriu a inclusão de uma frase analítica (cuja ideia eu havia pensado em incluir, mas não coloquei no primeiro rascunho) e atendeu às questões enviadas, o que facilitou a organização do texto e da análise sobre a pesquisa. A sugestões foram tratadas como sugestões que, no caso, aceitei por realmente valorizarem o texto e o tema – mas mesmo assim editei.  Não quis ousar demais na manchete, pois queria evitar qualquer laivo de sensacionalismo, algo extremamente fácil de surgir quando o tempo é curto.

O resultado do trabalho você pode ler aqui.

Naturalmente, vamos considerar essa notícia um texto introdutório. É aí que está a vantagem dele: se por meio dele for possível para uma pessoa leiga entender o que foi pesquisado, qual a importância dessa pesquisa e como ela pode ser útil, terei colocado um tijolinho na edificante construção da Divulgação da Ciência. E, no processo de construção dessa notícia, pude (mais uma vez)  entender melhor como um texto jornalístico pode se constituir em uma amostra de conhecimento a meio do caminho. Nem tão simples quanto um ditado popular, nem tão complexo quanto a pesquisa que lhe serve de tema.

Estou à disposição para comentários 🙂

Anúncios

2 opiniões sobre “Notícia: saber a meio do caminho entre o homem da rua e a academia?

  1. Pingback: Mudança tecnológica X mudança social: primeiras impressões « Do Paper à Pauta

  2. Pingback: Desculpe, estou afiando o machado… « Do Paper à Pauta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s