Os erros nas notícias sobre ciência – e algumas ideias sobre as suas origens

Errar é humano, mas superar os erros é ainda melhor.

Um dos pontos que mais incomoda qualquer profissional é o erro, seja por descuido ou imperícia.

Lembro de ter lido há alguns anos atrás, acredito que foi no livro A Mulher do Silva, uma das ótimas crônicas assinadas por Luis Fernando Verissimo. Naquele texto, ele mencionava que o escritor e o jornalista, em desvantagem perante o arquiteto e o engenheiro, não tem muitas chances de esconder seus equívocos.  Em tempos de comunicação online, alguém poderia dizer que é fácil corrigir o engano – mas sempre terá  outro alguém que vai imprimir, em papel ou PDF, a versão anterior e eterna do erro que parece uivar direto do meio do artigo.

Consegue ver o erro embaixo da folhagem?
Esse é o ponto.(imagem por Zedart, via Stock.xchng)

Se em uma notícia o erro pode variar do quase imperceptível ao estrondoso, quando o assunto é ciência o clamor é mais severo.  Em uma notícia sobre efeitos de remédios ou vacinas, por exemplo, os danos de uma informação equivocada podem ser muito sérios. Em outros campos menos relacionados com a saúde, o prejuízo pode ser mesmo motivo de chacota – como no caso Boimate da Veja.

Um dos mais conhecidos catadores de erros em notícias sobre ciência, o britânico Ben Goldacre escreve em seu Bad Science Media que existem três tipos de Notícia Pobremente Redigida sobre Ciência (o termo é meu, adaptado do inglês, e por isso vou usar a sigla NPRC para indicá-la daqui para a frente): a inusitada, a assustadora e a revolucionária (novamente, adaptei com certa liberdade. Perdoai-me). Cada uma traz seus danos para a compreensão do que se faz com o dinheiro investido em pesquisa.

Os tipos e a fonte dos erros (e não estou falando de tipografia)

A estranha, do tipo “curiosidades de almanaque”, acaba por levar ao risco de gerar a impressão de que os pesquisadores dedicam a vida a estudar aspectos desimportantes da natureza das coisas. Isso até virou gênero de piada, amplamente reconhecido, que vou chamar de “pesquisa inútil” . Rende algumas risadas, mas pode provocar o desinteresse na ciência de verdade.

A assustadora traz sempre o tom de alerta, e geralmente esse tom quer dizer que você não sabe, mas está fazendo algo terrivelmente errado. Pode ser para você mesmo, o planeta ou para o seu cão de estimação. E você comete esse engano por ser ignorante. O caso é que algumas das manchetes levam a pesquisas que podem ter sido mal entendidas, não-publicadas (portanto, sem uma importante fase de controle de bobagens). Algumas notícias sobre saúde, aponta Goldacre, parecem sofrer da obsessão com um escândalo, algo muito errado ocorrendo debaixo do pano, ou um perigo iminente, algo que o governo quer esconder. Nesse afã, a apuração acaba contaminada pela ânsia de destacar o erro oculto, esquecendo de juntar evidências que mostrem o que ocorreu de fato.

A notícia revolucionária, por sua vez, Goldacre relaciona com a busca constante de novos furos de imprensa. A ciência ganha espaço em editoriais e capas quando traz algo considerado uma descoberta importante, e o miolo do jornal também entra nessa conta. Goldacre reclama que esses espaços acabam ocupados por releases, distintos do artigo do qual se originam, artigo esse que fica oculto nas sombras por um tempo ou para sempre. É como se a ciência fosse notícia apenas quando algo pode ser explicado como incrivelmente inovador, afirma ele.

A origem dessas variedade de notícias “eivadas de erro”, para usar um juridiquês castiço, na hipótese criada por ele, reside na ausência de informação “útil” para o leitor, segundo os veículos de comunicação, uma vez que a maioria de seus públicos não terá condições de entender a ciência, motivo pelo qual a notícia sobre ciência deve ser  “simplificada” (minha adaptação é mais gentil que o termo original). Desse costume viria um reforço, acho eu, para a falta de costume de colocar o link para o estudo que serviu de base na notícia – de resto, vamos convir, poucas vezes se colocam todas as evidências coletadas para redigir o texto à disposição do leitor. Essa “moda Wikileaks” é algo a ser pensado.

Será?

Goldacre é um crítico bastante consistente: em diversos casos expostos em seu blog, ele explora as fraquezas de apuração e de interpretação dos dados científicos, com especial predileção pelos enganos no entendimento de estatísticas, correlação e causalidade. É, também, bastante ácido.

Eu diria que crer que o público é burro pode até  ocorrer para alguns editores e diretores, mas não penso que seja um motivo geralmente verificável. Manter uma editoria de ciência com pessoal fixo não deve ser algo muito comum (e isso é uma inferência minha, baseada em dados informais) em um cenário empresarial no qual se discute muito sobre a capacidade multitarefa do jornalista atual, as dificuldades de receita publicitária, a formação dos jornalistas. Cada um desses tópicos rende um post, mas fica para outra vez.

Quando se fala em jornalista “multitarefa” (palavrinha essa que detesto quando aplicada a profissões), geralmente se está falando em  empregabilidade. E não se trata apenas de tirar foto/gravar boletim para rádio/ mandar vídeo para o site/redigir/moderar fóruns: suspeito que se fale também de percorrer editorias. Ora, inteirar-se de uma pauta consome tempo e esforço; dominar uma área de assuntos necessariamente exige mais daqueles dois itens.

Uma formação complementar pode permitir unir o conhecimento de como comunicar ao traquejo para manejar e interpretar os dados em um artigo.  Mas esse é um investimento que tem de ser em primeiro lugar pessoal. Eu mesmo volta e meia fico em dúvidas. Um pouco mais experiente, sei que um verbo ou um substantivo nem sempre pode ser trocado, porque há uma significação diferenciada na linguagem científica de cada especialidade de conhecimento, e busco reforçar o cuidado com pautas que envolvem pesquisa. São as que mais gosto de fazer porque me exigem mais atenção e esforço. Mesmo assim, sinto falta de conhecimento formal um pouco mais aprofundado sobre a ciência – mais do que recebi no curso de Jornalismo.

Esse investimento deve vir acompanhado de uma genuína valorização da ciência como notícia. Goldacre critica o fato de uma “cadeia” de pessoas não especializadas em ciência ser responsável pela seleção de notícias sobre pesquisas em um departamento de comunicação de uma universidade (exemplo perigosamente próximo do meu caso…). Acho que se for possível oferecer uma formação sólida em Ciências, ainda que não muito extensa, aos comunicadores, uma parte do problema se encaminha para a solução.  Eu não excluiria a hipótese de ter a contribuição de um pesquisador como colaborador no tratamento de algumas pautas, mas essa é uma alternativa que tem de ser bem construída em relação à disponibilidade e às atribuições de cada um, para evitar um efeito Babel no meio do expediente.

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