Jornalismo Científico: fases e conceitos – 2

De modo análogo ao que ocorreu com a relação da imprensa com a política, a ciência foi retratada em diferentes momentos pelo jornalismo, do louvor acrítico à análise (mais ou menos bem) contextualizada.

Um dos representantes mais destacados do Jornalismo Científico na Espanha, o jornalista Manuel Calvo Hernando apontou que se poderia falar em três fases históricas da relação do jornalismo com a ciência – sem indicar, no curto artigo que acessei, os períodos de cada uma:

  • A primeira se caracterizaria pela mitificação da Ciência e pelo sensacionalismo nas manchetes. Nesta fase não existiria ainda o jornalista científico, no sentido de que não se teria um profissional especializado em abordar temas de ciência e tecnologia. As novidades científicas e tecnológicas seriam, então, uma comprovação factual do progresso possível para as sociedades;
  • a segunda seria marcada pelo surgimento da figura do jornalista científico nos Estados Unidos, incorporando a busca pela precisão e tratamento objetivo nas notícias – sem, no entanto (e talvez por isso mesmo) aprofundar o conhecimento nas matérias;
  • a terceira fase, que ele aponta como sendo a que estaríamos começando a presenciar, englobaria um viés mais amplo sobre a ciência, buscando entender o acontecimento não apenas do ponto de vista jornalístico mas também sociológico – isto é, não apenas noticiar correto, mas também interpretar a importância social e dar a saber para “o homem da rua” o que significa e como se passa o progresso científico, dentro da visão de que o conhecimento sobre a ciência é também elemento constitutivo da cidadania.

Buscando outras informações sobre a história do Jornalismo Científico, encontrei algumas pérolas:

  • Um especial multimídia organizado pela Universidade de Laval, Museu de Quebec e empresas de comunicação do Canadá, apresenta uma recuperação histórica em cinco períodos bem delimitados, de 1870 aos dias atuais, para o jornalismo canadense. 
É interessante notar que o trabalho de pesquisa buscou criar uma árvore comum de contextualização em cada período. Assim, em cada fase se dispõe de informações sobre a sociedade, a imprensa e a ciência de cada época no Canadá. A leitura ali permite alguns pontos de contato com a proposta de Calvo Hernando, listando uma exceção à regra da fase romântica: o editorialista Clément-Arthur Dansereau, que chegou a ser editor-chefe do diário La Presse, por ter uma postura ativamente voltada para a utilidade das informações que transmitia. Um trecho é interessante para relembrar que as classificações por época podem eventualmente esconder atuações diferenciadas:
When Dansereau discussed scientific and technical innovations, he did more than just report and explain the facts; he presented the positive and negative impacts. He developed a position and sought to convince the public of the validity of his arguments. For Clément-Arthur Dansereau, the newspaper was a public educational and training tool as well as an opinion developer.
 Ali, a divisão consta dos seguintes períodos: 1870-1920; 1920-1945; 1945-1970; 1970-1990; e, finalmente, de 1990 em diante, dando a ênfase necessária para a ascensão da Internet e da World Wide Web como novo campo de atuação jornalística.
Segundo Rensberger, a postura romântica na cobertura de ciência manteve-se intacta nos EUA até o lançamento do livro Silent Spring, da bióloga Rachel Carson, no qual ela denuncia os efeitos do pesticida DDT na vida silvestre. Esse teria sido o primeiro impacto forte na forma dulcificada com que os assuntos científicos seriam tratados pela imprensa norte-americana, deflagrando uma postura mais atenta e crítica diante das fontes. A título de curiosidade sobre essa marca temporal, a jornalista, professora e pesquisadora Fabíola de Oliveira, no livro Jornalismo Científico, menciona análise do jornalista americano Richard Harris na qual ele destaca que a explosão do ônibus espacial Challenger, em 1987, teria dado início à fase do ceticismo dos jornalistas frente às suas fontes. Vale a pena anotar que o livro de Carson é apontado como uma das influências principais do movimento ambientalista.

Como Logan relata, algumas das filosofias incluíram:

(1) cultivar a ideia de um aprendizado ao longo da vida para os cidadãos, 
(2) ajudar as pessoas a viver vidas mais longas e saudáveis pela promoção da atenção aos assuntos científicos,
(3) encorajar o uso do método científico como uma estratégia para agentes públicos avaliarem opções em temas públicos,
(4) ajudar cidadãos e agentes públicos a entender melhor a conexão entre investimento em pesquisa científica e o futuro econômico dos Estados Unidos,
(5) melhorar o investimento público em ciência, 
(6) estimular o interesse pela carreira na ciência entre jovens americanos, 
(7) aumentar o apoio e a boa vontade acerca da ciência entre os contribuintes, e 
(8) alimentar a vontade pública de apoiar a ciência como um vínculo não partidário do investimento nacional no futuro da economia e da cultura da América.


A julgar pelos indicadores temporais, acho que se pode considerar essa agenda como bem sucedida em vários pontos. Secko citou essa lista de objetivos como um sinal de que a educação para a ciência nos EUA foi um dos princípios balizadores  para o jornalismo científico incipiente (fase romântica), não sem consequências.
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