Velocidade e qualidade nas publicações científicas

O quanto a produção científica ganha – e o que pode perder – com um aumento da velocidade na publicação de artigos acadêmicos?

Se formos escrever um artigo ou desenvolver uma pesquisa a respeito da formação de um determinado tipo de conhecimento, uma parte essencial desse trabalho terá, necessariamente, de abordar a etapa de organização e comunicação desse saber. Com as informações cientificamente constituídas não seria diferente – talvez até se tenha de ser mais rigoroso.

Do longo período em que as trocas de conhecimento se davam por contato pessoal e cartas ao mundo conectado de hoje, o compartilhamento de saber científico se acelerou imensamente. Imagine o tempo que levaria para a discussão de resultados das pesquisas sobre o vírus H1N1 se fosse preciso esperar pela chegada de cartas ou pela realização de um grande evento que congregasse os estudiosos.

A existência da Internet é tributária, historicamente, de uma busca de soluções para a dificuldade de comunicação e troca de dados entre pesquisadores geograficamente distantes. E ninguém hoje questiona o fato de que o trabalho de publicar e abrir discussões ficou mais fácil e rápido, na esteira da aceleração do tempo que vivemos hoje.

Essa velocidade contrasta com o tempo ainda hoje requerido para a verificação e aceite para a publicação de resultados – e isso atrasa o avanço científico, postula Richard Price, fundador e presidente da plataforma Academia.edu, em artigo postado no site Techcrunch em abril deste ano.

Acelerar a publicação é bom?

No artigo, Price destaca que a publicação de um artigo em uma revista científica especializada, por conta do sistema atual de verificação, leva algo em torno de 12 meses. A etapa de publicação, que é o ponto inicial para a discussão sobre um determinado estudo pela comunidade de um campo específico da ciência, acaba sendo postergada por conta do tempo que se leva para avaliar e aprovar um artigo.

A discussão envolve mais aspectos do que se possa imaginar, além do tempo consumido na publicação. De certa forma, a seleção de artigos requer que alguns trabalhos sejam rejeitados, seja por conta de uma determinação temática, critérios de qualidade ou outro motivo relevante no atual sistema. Naturalmente, alguém poderá citar que por vezes esses pontos de seleção também retardam a emergência de algumas discussões que poderiam ter sido feitas antes. Kuhn, em seu Estrutura das Revoluções científicas, cita alguns exemplos de pontos de vista que somente anos depois receberam atenção por parte dos pesquisadores.

Ou seja, de certa forma, além de tornar a difusão de trabalhos algo mais rápido – e consequentemente ampliar as possibilidades de discussão – um ambiente de mais ampla distribuição de conteúdo científico também permite que mais estudos se tornem conhecidos, disponíveis e passíveis de verificação.

E a qualidade?

Bom, não sou especialista no tema, mas quero entender mais. E pelo que li do conceito de se usar plataformas online para compartilhar, avaliar e valorizar artigos científicos, o ganho  se dá na aceleração do comunicado sobre  resultados. O trabalho de pesquisa, portanto, de busca de resultados, não deve ser afetado – pelo menos não diretamente.

Price afirma que há também um ganho de escala na revisão por pares no modelo de distribuição pela web, com impacto (futuro) também na certificação acadêmica. Acredito que isso possa ser verdade, mas tem alguns pontos que me intrigam:

  • Se a distribuição envolve o uso de características da web e das ferramentas de redes sociais, isso significa que a publicação perde o significado de “selo de qualidade”. Então, que parâmetros vão definir quais trabalhos têm qualidade?
  • Aliado a esses parâmetros, que processos novos devem ser adotados para que se tenha realmente um ganho no processo de avaliação da qualidade de um artigo nesse novo modelo, uma vez que o “gargalo” da publicação foi eliminado?
  • Trazendo a brasa para o nosso peixe: em um sistema online, no qual há muitas possibilidades de estudos, como um jornalista de ciência tem de se conduzir para evitar um erro na escolha de pauta? O que mais se pode incluir na lista de habilidades a desenvolver?

Certamente que o tema merece mais posts a respeito, e espero abrir um bom debate com este post aqui. O que você acha? Espero seu comentário.

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