Indícios, anúncios: a ciência em tempo real

No final de junho, a divulgação da descoberta de novos indícios da existência do Bóson de Higgs, a partícula que falta para validar a versão atual do Modelo Padrão, mobilizou nova rodada de notícias e reportagens mundo afora. Estamos sabendo desses avanços mais rápido do que antes? Isso é ruim para a credibilidade da Ciência ? Meus dois centavos: sim e não.

Já é lugar-comum dizer que a Internet dinamizou processos já existentes. Um dos processos mais potencializados em abrangência e velocidade é a difusão de notícias e, em se tratando da curiosidade que os resultados científicos atraem – mais, talvez, que o interesse despertado pelos métodos empregado – quanto mais rápido, melhor. Ou não.

No caso das recentes divulgações sobre a pesquisa a respeito da existência do bóson de Higgs, é notável que em diversas manchetes predominou o uso da sensação, do espetáculo e do termo “partícula de Deus”, uma simplificação embasada na clássica e explosiva dicotomia ciência/religião. Em algumas matérias, porém, a sensação deu lugar à explicação atenta ao processo de etapas, bastante simplificado, é claro.

Esse acompanhamento, que praticamente se aproxima de uma suíte jornalística, se deve em muito ao esforço de divulgação das equipes responsáveis pelos experimentos conduzidos pela Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (CERN). Cada equipe de pesquisa tem seu site e seu staff de divulgação; unificando os esforços científicos de validação dos dados ao trabalho de divulgação, o resultado é uma informação que fica cada vez mais clara, apesar de algum sensacionalismo.

Em suma, o que se noticiou no final de junho foi a percepção de indícios de partículas massivas que coincidem com a escala de energia prevista em um release do final de 2011 e atualizado em fevereiro deste ano, quando as equipes Atlas e CMS divulgaram ter encontrado espectros energéticos nos quais o suposto bóson poderia ser percebido. Houve um esforço para deixar claro que a) os resultados divulgados são preliminares, b) é preciso prosseguir com as investigações e c) seja qual for o resultado (isto é, confirmando totalmente o Modelo Padrão, promovendo a sua atualização ou a sua superação), se está perto de uma descoberta valiosa para a Física. Em algumas matérias, tive a impressão de que  a manchete (por vezes ousada e com tom definitivo) briga com o texto (em boa parte das vezes, cauteloso).

Para completar a incerteza, depois de toda a celeuma do final de junho,  físicos de outra instituição de pesquisa publicaram um artigo no qual questionam a possibilidade de os indícios divulgados pelo CERN levarem à descoberta do bóson de Higgs dentro do previsto no Modelo Padrão (acesse o artigo em inglês aqui).

Essa situação de suspense midiático parece-me proveitosa para reduzir a diferença ou, ao menos, borrar o contorno da Ciência como um saber definitivo e completo. A publicação de notícias com os contrapontos e as reviravoltas, reverberando um pouco mais a cada vez o debate científico, pode ser pedagogicamente formadora. Ainda que possa haver quem se frustre ao descobrir que a Ciência não é infalível (e que nesse campo de atividade os erros significam novos caminhos, e não necessariamente derrotas), vejo o contato de mais pessoas com o processo de construção e discussão do conhecimento como um passo fundador para a participação social e a valorização e acompanhamento do trabalho de pesquisa.

Vou apresentar em um próximo post uma análise de como alguns veículos abordaram a notícia divulgada pelo CERN e o teor do artigo dos físicos Ian Low,  Joseph Lykken e Gabe Shaughnessy, em termos de coerência das notícias com o documento oficial e, claro, as semelhanças textuais.

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