Mudança tecnológica X mudança social: primeiras impressões

Em um desses dias em que estava jogando e conversando com um amigo sobre a vida, o trabalho, a família e as leituras edificantes que cada um estava tendo, falei de um livro que, posso dizer, ajudou a mudar algumas concepções que alimentava sobre ciência e sua relação com a sociedade.

Mais especificamente, a leitura de “Neutralidade da Ciência e Determinismo Tecnológico“, de Renato Dagnino (Editora UNICAMP, 2008 – achei uma versão online, postada ao que parece pelo próprio autor, aqui) está ampliando o recorte que estava fazendo do papel da ciência e da tecnologia na transformação de aspectos econômicos, políticos e sociais da vida que se leva. Trata-se de uma discussão relevante: do conhecimento acerca desses conceitos depende a visão que temos das inovações, do impacto ambiental, da presença de novos artefatos e bugigangas em nosso cotidiano e da nossa participação (ou omissão) nos debates sobre os rumos das pesquisas e dos investimentos em desenvolvimento.

Nas leituras que tenho feito em artigos que abordam o papel do Jornalismo ao noticiar sobre a Ciência (talvez com um enfoque diferente do que se destina à Tecnologia), as propostas incluem desde a vigilância, como ocorre no acompanhamento de outras áreas que rendem notícias, até o papel pedagógico, em uma ampliação do clássico tema do “cão de guarda”. Nesse sentido, como sou um jornalista interessado nessa questão de como o fazer jornalístico atua na divulgação de informações, disseminação de conhecimento e, talvez, construção e reforço da imagem da área de C&T como instituição, fiquei encantado com alguns alertas que a obra trouxe.

Um deles está na visão de neutralidade da Ciência, linha na qual Dagnino menciona uma das leituras mais influentes para mim nos últimos meses: A Estrutura das Revoluções Científicas”, do físico Thomas Kunh. O conceito de paradigmas científicos, ou seja, as explicações e métodos predominantes para um determinado campo de estudos, e as anomalias deflagrando crises das quais um determinado campo sai com um novo modelo ou com o antigo paradigma fortalecido, para minha pouca leitura, pareceu bastante plausível como uma explicação de como a Ciência funciona, afinal.

No meu interesse pelo mecanismo interno do processo científico, não havia me dado conta de que a definição feita por Kuhn focaliza o ajuste interno como meio de progresso do saber científico. Dagnino, ao apontar uma revisão bibliográfica acerca dos temas “neutralidade da Ciência” e “determinismo tecnológico”, me fez ver que faltava incorporar ao entendimento o estrato da interação com a sociedade. O argumento da capacidade do método científico de ser absolutamente neutro e independente das questões externas, articulado no discurso científico e tendo como objetivo a validação do processo de geração de conhecimento, é bastante eficaz em fazer esquecer ou ignorar que os cientistas, afinal, são pessoas.

Um exemplo da provocação feita pela obra trata da evolução do design dominante da bicicleta. Os primeiros exemplares, com os pedais ligados à roda dianteira, que era bem maior que a roda traseira, consistiam em modelos que privilegiavam a velocidade, mais esportivos, portanto. Os modelos com rodas de igual diâmetro, mais estáveis (aptos para o uso cotidiano), surgiram depois. Os dois modelos conviveram um pouco. Que fatores influenciaram a escolha entre um dos dois modelos? Essa é a pergunta que move uma das leituras apresentadas por Dagnino acerca da natureza da relação entre tecnologia e sociedade.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A evolução do design não seria apenas uma escolha entre alternativas técnicas viáveis, mas também uma decisão baseada na força de alguns grupos. Tecnologia e Ciência são espaços sociais onde há luta entre grupos, conforme os estudos sobre o tema a partir do viés marxista, uma das linhas abordadas no livro de Dagnino 

 

 

Em alguns trechos que abordam a questão do conhecimento e da linguagem como forma de poder, lembrei do famoso artigo “A Notícia como forma de conhecimento”, do sociólogo Robert Ezra Park (escrevi um pouquinho a respeito aqui). O poder de explicar e de conduzir ou inibir discussões é importante para o estudo da construção da notícia e também para a pesquisa a respeito da dicotomia “tecnologia X sociedade”. Vou continuar a leitura. Mesmo sem ter acabado, estou convencido de que tenho aí uma excelente referência bibliográfica para meus futuros interesses acadêmicos. Quando terminar, terei mais condições de compartilhar impressões por aqui.

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