Peças humanas para reposição

Em um esforço além-fronteiras, repórteres do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos publicaram um extenso material sobre os caminhos e as transações envolvendo tecidos humanos. Descobri esse trabalho em uma notícia no La Nación.

Leia o dossiê, mas já previno: as imagens são difíceis.

O dossiê contém uma série de informações sobre as indústrias de cosméticos e os serviços de cirurgia estética e funcional e o lado obscuro do uso de tecidos humanos em tratamentos de saúde. Serve, sem dúvida, como um bom exemplo do trabalho em rede de jornalistas de diferentes países para investigar assuntos com uma variedade de vieses dificilmente atingida por uma só pessoa em um curto espaço de tempo.

Mas o que me chamou a atenção foi que, como normalmente acontece (e nem sempre nos damos conta), a ficção científica antecipou um aspecto da realidade. Hoje podemos reimplantar dentes, enxertar pele e muitas coisas mais. O outro lado dessas soluções maravilhosas: retirada de “partes aproveitáveis” sem o consentimento da família, tecidos doados que se transformam em serviços e implantes caros, tráfico de cadáveres (!) de países pobres ou menos desenvolvidos para nações como os Estados Unidos ou a Alemanha.

Esse tema me interessou pelo fato de remeter de modo bem claro ao quanto nós ignoramos a respeito do emprego de tecidos e órgãos. Também por permitir a visualização das relações entre as esferas científica, tecnológica e social  – afinal, essa é uma categoria de possibilidades tecnológicas desenvolvidas a partir de inúmeras pesquisas. E essas possibilidades trazem em suas definições – senão, em suas aplicações – valores (extensão do tempo de vida, visão medicalizada da vida) circulantes em nossos espaços públicos midiatizados. E, finalmente, porque me declaro doador de órgãos.

Estamos a caminho de viver no mundo dos filmes Repo Men, de Blade Runner, de Minority Report – tanto em termos de soluções sofisticadas para diversos problemas quanto de dilemas éticos sobre o acesso a essas soluções. Esse tema se encaixa na esfera de discussões sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade, e é importante ler esse dossiê. É um lembrete de que tudo na vida (mesmo após a morte de alguém, no caso) tem diversas facetas para serem vistas e reconhecidas.

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