Uma causa dolorida e as mudanças envolvidas

Após 50 anos dos primeiros casos de malformações por conta da talidomida, a fabricante do medicamento, a Grunenthal, inaugurou um memorial em uma estranha homenagem às suas vítimas nesta semana, na Alemanha. Nesse local, há uma estátua de uma criança sem os braços e as pernas, em uma referência às dezenas de milhares de pessoas afetadas pela droga, que foi colocada no mercado sem as devidas baterias de testes, nos anos 60. É irônico que a talidomida, que foi vendida como sedativo capaz de promover alívio para as náuseas matinais de gestantes tenha provocado tanta dor para tantas pessoas.

O escândalo mundial teve como consequência, no âmbito científico, o reforço dos testes requeridos para o lançamento de novas drogas, promovendo uma revisão metodológica e ampliando o número e o rigor dos testes. Embora se tenha descoberto um uso da substância no tratamento de alguns tipos de hanseníase, o risco associado ao nome e o potente mecanismo teratogênico (que pode causar dano ao embrião ou ao feto durante a gestação) fez com que a Organização Mundial da Saúde estabelecesse um procedimento padrão para o uso do medicamento sob severo controle.

No âmbito midiático, porém, a mudança de posição organizacional demorou mais tempo. Do final dos anos 60 em diante, a fabricante teve derrotas judiciais, que abriram caminho para diversas indenizações. Ainda assim, foi somente em 31 de agosto de 2012 que a Grünenthal se manifestou em público se responsabilizando pelos danos e apresentando um pedido de desculpas muito mal recebido. Foram mais de cinco décadas seguindo uma política de evitar a imensa responsabilidade – o que se pode chamar de pesadelo crônico de imagem pública. Esse foi o mesmo período de tempo durante o qual as vítimas fizeram todo o possível para expor a sua realidade

Não dá para não pensar na influência que o novo espaço público midiatizado e globalizado teve nessa decisão. O público apresenta suas vozes de modo mais forte e influente agora, e uma empresa com essa marca na reputação precisa saber lidar com isso – inclusive se manifestando oficialmente a respeito.

A presença da estátua da criança, de certa forma, me remete ao forte sentimento de culpa que os alemães ainda trazem por conta do Holocausto. Por isso mesmo, embora ainda exista a controvérsia judicial a respeito de indenizações, a decisão de montar um memorial às vítimas da talidomida não deixa de ter um significado forte.

No entanto, em se considerando o tempo em que a responsabilidade foi negada, e o dever de indenizar, menosprezado, não dá para deixar de entender e concordar com a fúria das pessoas afetadas pela talidomida. Não se trata de uma passagem aérea, um plano de telefonia ou uma compra pela internet: é uma falha de consequências duradouras e de amplo espectro.

Esse caso, para além de um exemplo a estudar sobre como uma empresa em apuros não deve agir em relação ao público, mostra como é valiosa a compreensão de que a investigação em laboratório precisa estar sempre conectada aos princípios éticos que valorizem a vida e a sociedade. Por mais que o lucro seja uma meta, ele não deve ser a única, nem a mais relevante.

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