Em busca dos modos de presença da ciência nos jornais do interior do RS

Escrevo desde a cidade de São Borja, na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, e trabalho na Universidade Federal do Pampa, na Assessoria de Comunicação Social. Uma das coisas que mais me atrai nesse trabalho é a possibilidade de acessar pesquisadores e escrever sobre Ciência. Realizar uma boa mediação entre o saber altamente especializado e o senso comum é uma meta que ainda quero atingir. E fazer boa e séria pesquisa nesse ramo, também.

O interesse por esse aspecto do leque de minhas atribuições me fez criar este blog, que se não é (ainda) conhecido e constantemente atualizado, por outro conta com material original e gosto genuíno pelo assunto. Outra consequência é que retomei (e estou ampliando a lista de) leituras que me deem mais respaldo e conhecimento sobre as interações entre o jornalismo e a miríade de especialidades que nós chamamos genericamente de Ciência.

A pesquisa, meu caro, a pesquisa…

Mas o nariz de cera não está de graça neste texto. O caso é que participo de uma pesquisa ainda em fase inicial que visa mapear e analisar as formas de presença da Ciência nas notícias dos jornais da região de abrangência da Unipampa (ou seja, dos jornais de Alegrete, Bagé, Caçapava do Sul, Dom Pedrito, Itaqui, Jaguarão, Santana do Livramento, São Borja, São Gabriel e Uruguaiana). No momento, escaneamos (literalmente) o jornal Folha de São Borja, adotando como recorte temporal um período de 11 anos, de 2000 a 2010, em busca de notícias que abordem pesquisas científicas, políticas de pesquisa, ou que tragam explicações, conceitos e orientações embasados, ou que se digam embasados, em saber sistematicamente testado, analisado e comparado.

A pesquisa é francamente exploratória. Com isso, quero dizer que antes de entrarmos de fato em qualquer outra análise possível no que tange ao modo de atuação do jornalismo local, ou mesmo de estudar esse “modo de presença” em outros suportes (rádio, TV, Web), queremos quantificar e sistematizar as presenças que notarmos. Estamos ainda na fase de construir o inventário e aplicar o procedimento de análise de conteúdo. Como os recursos iniciais são escassos, começamos por São Borja, onde o grupo está sediado, e traçamos o objetivo de construir nossa metodologia adaptada, testá-la e aprimorá-la com os dois jornais em funcionamento na cidade. Com um método já testado e corrigido, e uma equipe um pouco mais experiente, poderemos partir para as outras nove (!) cidades com segurança e eficiência.

A relevância está na base

O motivo de começar com a pesquisa exploratória, sabendo que o Jornalismo Científico é um campo com diversas contribuições já publicadas em anais de eventos científicos, é o valor que damos ao contexto regional. A Campanha e a Fronteira Oeste são espaços do Rio Grande do Sul que apresentam situações históricas de subdesenvolvimento, com forte concentração de renda, migração de contingentes em busca de oportunidades em outras regiões, grande dependência do setor primário como matriz econômica, carência de infraestrutura tecnológica e, até alguns anos atrás, sem opções de acesso ao ensino superior público.

Entre outros efeitos, essa situação afeta o acesso ao consumo de informação. Se focalizarmos apenas o aspecto dos jornais impressos, que foi nossa primeira escolha de suporte a estudar, temos uma lógica tradicional de mercado na qual uma minoria da população se insere. A circulação, a composição da equipe da Redação, as maneiras pelas quais as decisões editoriais são tomadas, tudo isso segue, até certo ponto (em minha opinião, claro), alguns dos parâmetros que podem ser considerados quase universais entre as empresas que publicam jornais impressos no interior do Brasil. E, a partir daquele ponto, essa configuração sofre influências desse contexto local.

Ao mesmo tempo, as instituições que tem interesse em divulgar suas atividades na região (a Unipampa entre elas) mantém constante intercâmbio com os veículos de comunicação. Dentre essas instituições, boa parte delas representando o Estado, há as que são devotadas ao ensino superior e técnico, como a Unipampa, a Uergs, a Urcamp (a mais antiga delas), o Instituto Federal Farroupilha; temos os espaços institucionais de pesquisa e de extensão rural dedicados ao setor primário, como a Fepagro, a Emater, o Irga, a Embrapa. Essas são instituições que podem, em seu esforço cotidiano para visibilizar suas ações na imprensa, publicizar notícias sobre investigações científicas, repassar orientações especializadas, ajudar a explicar fenômenos naturais, sociais, tecnológicos ou científicos, divulgar conceitos e saberes de áreas específicas – enfim, divulgar a ciência, torná-la presente.

Explorando essas presenças, podemos traçar algumas inferências que nos dirigirão a hipóteses especialmente produtivas, por incluírem a atenção com o contexto regional específico. Vou publicar mais coisas a respeito da pesquisa conforme o andamento do trabalho.

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